sábado, 2 de março de 2013

"Canoas tem de levantar voo"

O Timoneiro 31.12.2009.
POR CELSO AUGUSTO UEQUED PITOL

A vista da rua Cândido Machado decora o gabinete de Ivo da Silva Lech. O responsável pela Controladoria da cidade de Canoas, deputado constituinte, vereador, advogado militante e político há mais de três décadas, observa todos os dias o movimento da rua. E não de qualquer rua. A Cândido Machado é um dos pontos tradicionais da cidade, onde se reúnem, ao fim das tardes, antigos e ilustres canoenses para tomarem um café e discutirem os problemas mais relevantes, sob o olhar auspicioso do prédio da Prefeitura, situado à rua com a qual faz esquina; onde se encontram alguns dos melhores profissionais liberais da cidade, muitos deles de relevância política; onde há repartições públicas, serviços públicos, homens públicos; onde há bares e restaurantes antigos, cujas mesas testemunharam almoços decisivos, conversas animadas, discussões acirradas. A enorme janela da sala situada no terceiro andar do Dick Center comunica diariamente a Ivo Lech um pouco da cidade onde nasceu, em 1948, e onde nasceram seus pais e avós, uma raridade em um lugar marcado pelo transitório, pelo fugaz, pelo vai-e-vem. Comunica, sobretudo, a responsabilidade daqueles que juram servir à cidade como os médicos juram servir aos doentes e os fiéis, à Igreja. Foi sobre este homem, esta cidade e a vida deste homem nesta cidade que versou a conversa nesta terça-feira úmida, de calor escaldante, um pouco amenizado pelo ventilador, por copos de água gelada e por um vento que soprava, vez que outra, da enorme janela para a rua Cândido Machado. 

O Timoneiro: Quando começou na política?
Ivo Lech: Posso dizer que comecei no Grêmio Estudantil do La Salle como vice-presidente de chapa. Foi um momento curioso porque assumimos em 1964, exatamente no ano do golpe militar. Eu tinha apenas 16 anos e estava recém começando a acompanhar política partidária mais perto através das leituras do Jornal do Dia, o jornal que nós assinávamos lá em casa, de orientação católica. Um tempo depois, o irmão Norberto Nesello me contou que ele foi visitado por alguns militares naquela época e lhe pediram que declarasse que nenhum dos dois integrantes da chapa era simpatizante do comunismo. Olha, eu, naquele tempo, mal sabia o que era comunismo (risos). Sabe qual era a grande proposta da nossa chapa? Nós chamávamos de "A democratização do esporte", mas era o seguinte: nos jogos de futebol de casa série, formava- se os melhores times de cada ano. Os demais alunos não participavam, eram excluídos. Assim, nossa proposta era a de que se formasse não apenas o time A, mas o time B, o time C e assim por diante, para poder colocar em campo todos os alunos. Era essa a nossa preocupação principal naquela altura, não com o comunismo! (risos). 

OT: O que, aliás, era perfeitamente natural... 
IL: Sim, perfeitamente natural. Mas é para tu teres uma ideia de que a repressão, naquela época, era uma parte do nosso dia-a-dia. 

OT: Essa ingenuidade, por assim dizer, da política estudantil, não pode durar muito, portanto. 
IL: Não, não durou. Porque o nosso cotidiano - o nosso, de cidadãos brasileiros jovens, interessados em política - passou a ser violento. Conforme fomos crescendo, ficamos sabendo de pessoas que foram torturadas, que foram vítimas de violência, gente que de repente sumia, etc, etc. Aí veio em mim a indignação com tudo aquilo, como é próprio de todos os jovens. Comecei então a militar na política e fui um dos criadores do MDB aqui em Canoas, no fim dos anos 60. O Giacomazzi, o Jorge Uequed estavam entre eles. Participei ativamente da política partidária a partir de então. 

OT: Como era a vida de quem estava na oposição? 
IL: Era complicada. Notava-se uma grande arrogância e prepotência por parte daqueles que estavam, de uma forma ou de outra, ligados ao regime: policiais, militares, políticos, civis, etc, etc. Nós éramos vistos como indesejáveis, subversivos, inimigos da Pátria. Era o tempo do "Brasil ame-o ou deixe-o". Quem não estava com o regime, estava irrevogavelmente contra ele. E isso não se estendia apenas aos que militavam contra o regime, mas também àqueles que simplesmente não o apoiavam. Sobre essas pessoas já recaíam suspeitas.

Em 1982, fui eleito vereador e, em 1986, deputado federal, quando participei da Assembleia Nacional Constituinte. Sempre pelo PMDB. Eu comecei no velho MDB, mantive-me no PMDB e dele não vou sair. O MDB foi, na minha opinião, o movimento mais bonito de toda a história do Brasil.

OT: Como deputado constituinte, como vê o Brasil pós-redemocratização? 
IL: Eu sempre digo o seguinte: o Brasil de hoje foi criado pelo MDB. O Brasil que temos hoje foi o que o MDB sonhou. Somos a oitava economia do mundo e em breve seremos a quinta ou sexta. A nossa desigualdade social diminui, as exportações avançam, temos uma das mais ricas biodiversidades do planeta, temos a nossa cultura, a nossa música... temos tudo. O Brasil está crescendo a olhos vistos. Tivemos conquistas sociais enormes nos últimos anos e isso se deve, em grande parte, ao que nós fizemos na Constituição de 1988. Veja o artigo 5º., que fala dos direitos e garantias fundamentais. Tem nada menos do que 77 incisos. Quando nós o elaboramos, muita gente dizia que era grande demais. Pois bem, hoje ninguém teria coragem de mexer num só desses incisos. São conquistas consolidadas. E isso não existia antes. 

OT: E Canoas? Como vê a nossa cidade desde que para cá voltou, depois de seu mandato como deputado? 
IL: Canoas ressente-se muito do fato de que ficou 21 anos, entre 1964 e 1985, sem poder eleger o seu prefeito. Isso foi muito negativo para a história da cidade. Lembro que o lider da bancada do meu partido, um senhor que tu deves conhecer bem (refere-se a Celso Pitol, então líder do MDB na Câmara de Vereadores) dizia que Canoas não tinha prefeitos, tinha alcaides. Eu me pergunto: será que hoje a nossa dificuldade em formar lideranças não tem a ver com este período em que a vida democrática da cidade ficou paralisada? Será que isso não abafou o surgimento de pessoas interessadas em pensar a cidade? Os resultados foram sentidos ao longo dos anos. Hoje nós temos o segundo maior PIB do Estado, temos um setor industrial fortíssimo, temos três universidades, e uma delas é uma das maiores do país, um comércio pujante, os serviços de igual sorte, mas não temos um projeto de cidade, não pensamos a cidade como deveríamos. Parece que a cidade foi crescendo sem planejamento, sem ordem, e as coisas foram simplesmente acontecendo. O Poder Público canoense mostrou-se sem imaginação. Canoas precisa urgentemente disso: de imaginação, de discussão, de retomada das idéias para a cidade tomar o caminho que merece. Lembro daquela frase que foi escolhida para os 70 anos da cidade: "Voa, Canoas". É exatamente isso, Canoas tem de voar. Nós precisamos pegar o aviãozinho na mão, e, como crianças que brincam com ele, fazê-lo voar por aí, e voar bem alto. É o nosso "Sim, nós podemos", aquela frase tão simples que o Obama pronunciou e que sintetiza tudo. 

OT: Nos próximos dias estaremos entrando no ano de 2010. Uma década está próxima a terminar. Qual o balanço? 
IL: No país, eu diria que é bem positivo, por todas as conquistas que foram consolidadas e que eu já referi antes. Em Canoas, eu diria que suscita preocupações, por tudo o que foi registrado, nacionalmente inclusive, envolvendo o nome da cidade. Precisamos sentar e propor um grande debate municipal e pensar seriamente as questões envolvendo o futuro da cidade. Eu, quando aceitei fazer parte do governo, tive essa preocupação. Aliás, eu diria que a Controladoria Municipal foi a função mais difícil e mais instigante que eu me propus a realizar. 

OT: Por que? 
IL: Porque é algo novo. Para teres uma ideia, somos a primeira cidade do Sul do Brasil a ter uma controladoria municipal. No país inteiro, são duas ou três, além, é claro, da Controladoria da União. O que a controladoria faz? Ela fiscaliza como o dinheiro público será aplicado, avalia a aplicação do orçamento, os programas de governo, em suma, ela controla o governo de dentro. Isto é algo muito novo dentro da administração pública brasileira. Está de certa forma previsto no artigo 31 da Constituição Federal, quando ele fala que a fiscalização do Município será exercida pelos sistemas de controle interno do Poder Executivo Municipal, o que é mais uma das conquistas da nossa Constituição. Não existia isso antes, e também não faria sentido, porque uma ditadura não faria nada parecido com um controle interno (risos). Então, quando uma cidade assume que tem uma controladoria, ela assume um compromisso definitivo com a transparência nos gastos públicos e na gestão pública. E isto é algo que a cidade está demandando e com muita força. 

OT: Três décadas de vida pública, incluindo participação em momentos decisivos da cidade e do país: uma experiência e tanto dentro da política. Baseado nisso, como definiria a vocação do político? 
IL: A questão é complicada. Mas eu diria que é vocação para trabalhar em prol do bem comum. Este é o nosso foco: o bem comum. Fazer com o que o maior número de pessoas tenha dignidade, saúde, paz. 

Quase não percebemos a passagem de mais de uma hora de entrevista, malgrado todo o calor e toda a umidade que nos roubava o conforto e faria o tempo passar mais devagar. Esta entrevista, marcada por vários verbos na terceira pessoa do plural - "nós precisamos", "nós temos que", "nós vamos" - pronunciadas com punhos fechados, como quem quer convocar os demais a participar de uma caminhada, mostra entusiasmo, paixão, força de vontade. E transmite esperança.

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